quinta-feira, 15 de fevereiro de 2018

Esquadrão do além – Vida Cigana

A noite estava só começando... Juan acabara de “desdobrar”... procurou por todos os lados e nada do super-herói da noite anterior...
Será que ele não viria? Será que alguma coisa  sobrenatural acontecera com ele? Como fazer num caso desses? Ele não sabia que atitude tomar.

Ficou pensando um tempo quando percebeu uma festa, muito barulho, fumaça, gente cantando e dançando... só que não era ali... ele ficou preocupado... ouvia, via, sentia, mas não era da maneira como ele estava acostumado...

Instintivamente começou a caminhar pelas ruas em direção ao que ele imaginava fosse a tal festa...

De repente, não mais que de repente, a cena toda se descortinou a sua frente... realmente parecia um acampamento cigano, tinha até aquele carroção tipo velho oeste, puxado por cavalos e tudo o mais... no centro do furdunço tinha uma fogueira, viva, chamas altas, labaredas que atingiam mais de cinco metros de altura... só que não tinha ninguém...

Ele ficou imaginando o que seria aquilo... como pode uma cena dessas e não ter ninguém?

Ficou meio desesperado pois ele queria saber o que estava acontecendo... foi aí que ele viu uma figura dentro da casa em frente à fogueira.
Entrou e tentou conversar com o tal homem...

A descrição do homem era muito parecida com o impacto que ele tivera quando conheceu o “capitão sobrenatural”, aquele da cuequinha por fora da calça.

Esse não tinha esse adereço, mas o cara estava com uma roupitcha digna de filme da Disney... sabe aquela calça preta, botas, cinto com fivela grande, bardana na cabeça e... ouro, muito ouro...

Juan ficou extasiado com o que estava vendo... depois do primeiro “susto” teve o segundo... o homem puxou conversa, se é que pode ser chamada de conversa uma impressão fonética que atingiu o cérebro de Juan.

- ei... você!!! Me ajuda, por favor!!!

Os lábios do homem não se mexiam... Juan ficou sem saber o que fazer... será que o “som” vinha dele mesmo?

Outra vez a mesma impressão e mais uma e outra mais, até que Juan resolveu responder:

- tá falando comigo?

- claro que estou, tá vendo mais alguém aqui?

Realmente os dois estavam sós... estranho que o cigano ouvia a voz de Juan, mas não articulava para falar.

- o que você quer?

- preciso ajuda para socorrer uma amiga que não via há muito tempo...

- no que posso ajudar?

- preciso fazer com que ela se lembre de mim e nós possamos conversar sobre os bons e velhos tempos de acampamento...

- onde está essa sua amiga?

- está lá dentro da casa...

- ela não consegue “aparecer” deste lado?

- conseguir consegue, mas tem muito medo... eu não sei o que fazer...

- espera um pouco que eu tenho um amigo mais experiente, estou tentando ver onde ele está... já, já a gente resolve o caso...

Nesse meio tempo, aparece um senhor com, mais ou menos, uns quarenta anos de idade, se aproxima dos dois e, articulando, pergunta o que está acontecendo.

Juan se deslumbra com o jeitão do homem, terno impecável, estilo anos 1950, gravata, sapato brilhando como estrelas na noite escura, o prendedor da gravata com uma pérola pequena, mas de brilho intenso, dentes parecendo um teclado de piano, novinho em folha, camisa de linho, tudo impecável... ah... o chapéu!!! Um chapéu estilo Panamá, branco, com uma fita azul celeste envolvendo todo ele...

Passado o “susto”, Juan colocou o estranho a par dos últimos acontecimentos e o cigano contou também tudo o que havia dito a Juan.

O estranho então se apresentou... chamava-se Marcos Tertuliano e gostaria de ajudar, pois tinha muita experiência nesses casos onde a reencarnação separara amigos de há muito tempo.

Como é que é? Perguntou Juan.

É isso... ele está desencarnado... dá uma olhada... ele não tem o cordão de ligação com o corpo físico e, provavelmente, a amiga dele está reencarnada e não consegue entrar em contato com ele...

Rapaz... será?

Foi aí que o cigano disse o nome dele: Erick.

A partir dai, Erick começou a contar algumas coisas da vida dele... disse que não se lembrava de quase nada, mas que ele vivia em um acampamento cigano, onde se preparavam para as saídas noturnas, pois fazia parte de uma companhia de arte que encenava uma peça em várias cidades... aquelas reuniões à beira da fogueira eram para que eles treinassem a leitura de cartas, leitura de mãos, adivinhação do futuro das pessoas e assim por diante, além de proporcionar diversão e convivência para todo o grupo.

Marcos Tertuliano ouviu tudo com muita atenção e propôs que fossem ver a moça...

Chegando lá perceberam que ela se agitava, contraia o rosto, parecendo que não estava gostando muito da visita... ela não conseguia desdobrar!!!

Foi então que o Marcos perguntou ao Erick o que tinha acontecido pois, aparentemente, ela não tinha nada a ver com ele.

-nós somos amigos, fazemos parte do mesmo acampamento... não consigo entender o que está acontecendo... montei até uma fogueira para que ela visse e fosse até lá...

- há quanto tempo você não a vê, Erick?

- acho que não sei direito... eu estou meio confuso agora... não sei dizer exatamente quanto tempo faz que não a vejo...

- tem certeza que é a mesma que você conheceu?

- claro... como esquecer amiga tão querida... nós somos parceiros de teatro, fazemos brincadeiras no palco em muitas cidades... não é possível... alguma coisa está errada...

- eu também acho... disse Juan.

Nessa altura do campeonato, quem é que chega?

Ele... o “super-herói” da cueca por cima da calça...

Juan ficou aliviado...

- Onde você estava? Porque demorou tanto? Não disse que era só desdobrar que a gente se encontrava? Estamos aqui cheios de problemas...

- opa... calma... tive alguns contratempos e não consegui sintonizar com você... o que está acontecendo?

Juan contou toda a história, apresentou o Erick, apresentou o Marcos Tertuliano, mostrou a reação da moça e tudo o mais...

- Isso é simples, disse o nosso “super-herói”...

- Como assim... simples?

A pergunta foi quase geral, Marcos porém ficava um pouco afastado e esperando o desenrolar da história...

- é simples... ela está encarnada e ele desencarnado... não dá liga!!!

- liga?

- isso mesmo... ela não lembra dele, está em outra, essa história ficou em outro tempo...

- ela não vai mais lembrar de mim? Perguntou Erick.

-é capaz que lembre, sim, mas depois que ela voltar pro teu lado... antes fica muito difícil...

- e o que eu faço agora?

- você sabia que estava desencarnado? Lembra de alguma coisa que, de repente, mudou a tua vida?

- Eu lembro sim... eu perdi o controle da carroça... os cavalos ficaram muito nervosos com um raio durante a noite e acabamos caindo numa ribanceira muito profunda... depois disso eu perdi contato com os meus amigos do acampamento...

- então... não fique chateado, mas você não faz parte deste lado da vida mais... você agora é um espirito desencarnado... tem outras coisas pra fazer...

Marco Tertuliano estava parado e, mentalmente, ajudava Erick a lembrar algumas coisas do passado distante... estava numa espécie de transe...

- nossa... que coisa louca!!! Por isso ninguém conversa comigo, ninguém me escuta, ela não me escuta...

- isso mesmo... ela sente a tua presença, mas não a ponto de conversar com você... somente pessoas com capacidade mediúnica conseguem conversar, ver e sentir você de maneira mais concreta...

- ela fica assim desassossegado por minha causa?

- isso mesmo, não é que você faz com intenção, mas a tua vibração é diferente e, por isso, causa um certo mal estar nela...

- eu juro que não queria nada disso, eu só queria retomar nossas atividades...
eu sinto falta do palco e da companhia dos meus amigos... o que eu faço agora?

- fique tranquilo, disse Marcos Tertuliano, tomando parte na conversa...

- o que poderemos fazer agora, Marcos?

- já está providenciado... dá uma olhada na carroça...

Eles olharam e ficaram boquiabertos... um grupo estava lá... todos vestidos mais ou menos como Erick... e acenavam para ele...

- reconhece alguém, Erick?

- Meu Deus... como é isso? Claro que reconheço... o Estevão e o Igor estão lá... são meus amigos de longa data... estávamos no mesmo acampamento... parece milagre!!!

- não é milagre, mas uma oportunidade que você está tendo para retomar a vida...

- será que eles tem um acampamento para que possamos nos reunir?

- eu acho que sim...vá até lá e converse com eles... estão te chamando...

- e a Fernanda? Minha amiga... como ela vai ficar? – perguntou Erick.

- ela vai ficar bem... essa sensação logo desaparecerá e ela terá a impressão que acordou de um sonho estranho...

Os três “heróis” viram quando Erick foi para o lado dos amigos e desapareceu como se tivessem sido tragados pelo passado... passado tão presente que trouxe de volta velhos sentimentos de amizade e companheirismo...

Tanto Juan quanto o “super-herói” ficaram esperando que Marcos dissesse alguma coisa...

- pois é, gente... mais um caso resolvido... agora é ir pra casa e... trabalhar... o dia tá nascendo de novo...

Juan desta vez não esqueceu e perguntou para o “super-herói”:

- como é teu nome?

- Estevão... José Estevão!!!

Manolo Quesada
08/02/2018

“baseado em fatos reais relatados durante assistência de desobsessão”